O BERÇO DO FUTEBOL BRASILEIRO?

Pesquisadores afirmam que o escocês Thomas Donohoe, que veio trabalhar na antiga fábrica de tecidos, introduziu o esporte no país.

Aos domingos, muitos torcedores vão aos bares do Bangu Shopping assistir aos jogos de seus clubes. O que quase ninguém sabe, é que ali mesmo, em um domingo de setembro de 1894, teria sido disputada a primeira partida de futebol do Brasil. Pelo menos é o que diz um grupo de pesquisadores que creditam ao escocês Thomas Donohoe o pioneirismo do esporte no país. Eles garantem: o futebol brasileiro nasceu em Bangu.

Quem foi Donohoe?

É o que você vai descobrir logo abaixo na entrevista feita com o jornalista Carlos Molinari, pesquisador e torcedor banguense, e Clécio Regis, um cenógrafo respeitado e fanático torcedor do Bangu.

Carlos Molinari:
Thomas Donohoe, escocês, nascido em 1863 na vila industrial de Busby, a oito quilômetros de Glasgow. Como todo morador da vila, Donohoe teve como destino trabalhar na fábrica Printworks, lidando diretamente com o setor de tingimento de tecidos.

Thomas Donohoe

Casado com Elizabeth Montague e vivendo na vila operária da cidadezinha, num sobrado, que dividia porta a porta com seu irmão, um bombeiro da fábrica, Donohoe começou a perceber que as finanças vinham mal quando nasceu o primeiro filho: John, em 1891.

Documentos encontrados pelos pesquisadores do Bangu

A vida de um operário no berço da Revolução Industrial não era fácil: trabalhava-se muito, ganhava-se pouco. Em 1894, nasceu o segundo filho do casal: Patrick. Foi aí que Donohoe notou que o ordenado pago pela Printworks não cobriria as despesas da família.

Por sorte, seu irmão James passou a ser o chefe da seção de tinturaria. Mas a fábrica vinha mal das pernas. Fundada em 1796, a Printworks de Busby encaminhava-se para a falência (de fato, encerraria suas funções em 1901).

Platt Brothers & Co, de Oldham.Foi o irmão de Thomas Donohoe quem o indicou para a Platt Brothers & Co., de Oldham, que estava recrutando trabalhadores para uma nova fábrica têxtil instalada no Brasil, justamente a Companhia de Bangu.

Assim, após ser bem recomendado pelo seu patrão-irmão, Thomas Donohoe saiu do vilarejo de Busby e foi de trem até Oldham, sede da Platt Brothers & Co. assinar o seu novo contrato. Antes de embarcar, recebeu também uma espécie de “salvo-conduto” assinado por John Wodehouse, 1st Earl of Kimberley, que garantiria toda a proteção em terras brasileiras ao cidadão britânico.

Foi assim que, em 4 de maio de 1894, no porto de Southampton, o novo mestre da Companhia Progresso Industrial do Brasil embarcou para o porto do Rio de Janeiro a bordo do S. S. Clyde, junto com outros 48 passageiros. Uma viagem que duraria 21 dias. Emprego garantido como Mestre da Tinturaria, uma boa casa na vila operária, passagem paga pela Companhia, salário pago por dia de trabalho de acordo com a cotação da Libra, vantagens que os brasileiros ofereceram para o destemido escocês que cruzou o Atlântico para desenvolver a nossa incipiente indústria têxtil.

No entanto, duas preocupações ainda povoavam a cabeça de Thomas Donohoe. Sua esposa e seus dois filhos pequenos tinham ficado na Escócia e, outra, adepto dos sports, jogador do Busby F.C., o intrépido mestre tinha reparado que não se jogava football em Bangu, sequer existia uma bola à venda nas casas comerciais do centro do Rio.

Não perdeu tempo: foi até a diretoria da fábrica. Certificou-se que seu contrato era longo, iria realmente ficar no bairro, precisava trazer Elizabeth. Foi assim que a fábrica pagou a viagem da sra. Donohoe, que embarcou no S.S. Liguria, em Liverpool, no dia 16 de agosto de 1894, trazendo os filhos John, com 3 anos, e Patrick, de seis meses, mais uma bola de couro na bagagem – pedido feito por Thomas em carta escrita à mulher.

Carlos Molinari:
Não cheguei sozinho a essa conclusão. Antigos banguenses já falavam sobre isso. Textos de um antigo diretor de patrimônio histórico do clube, o Vivi – Manoel Rodrigues de Moura – já sinalizavam na direção de que Thomas tinha sido um pioneiro. Em publicações feitas pelo próprio Bangu A.C. nos anos 80 já se falava sobre isso. Aliás, até mesmo em edições de diversos jornais – a respeito do aniversário do Bangu Atlético Clube, em 17 de abril – sempre que entrevistavam o Vivi ele tocava no assunto. Foi assim que O Globo chegou a publicar sobre este pioneirismo em 1961.

Daí, eu comecei a buscar informações que me permitiram reconstruir o cenário da chegada desses imigrantes, as datas corretas em que desembarcaram, em que começaram a trabalhar na fábrica, para verificar que, realmente, era extremamente possível que eles tenham jogado futebol aqui antes do jogo inicial de Charles Miller, em abril de 1895, em São Paulo.

A única explicação possível para um fracasso do meu argumento é que eles tenham aberto mão de qualquer tipo de lazer, de prática esportiva nos dias de folga, o que me parece estranho. Afinal, em 1897 eles solicitam à direção da fábrica a fundação de um clube esportivo, que é negado pelo administrador Ferreira Gomes, por achar que jogos esportivos eram a mesma coisa que carteados e jogos de azar e que isso seria negativo para os trabalhadores da fábrica.

Clécio Regis:
Em 2010 resolvemos fazer um filme sobre o pioneiro Thomas, sob direção de Hélios Dutra, morador do bairro, a partir dai resolvi criar o Monumento ao Pioneirismo em frente ao estádio de Moça Bonita.

A ida à Escócia já está alinhavada através da internet com familiares e pesquisadores de lá. Assim teremos mais detalhes a acrescentar.

Não acredito que exista clube no Brasil com histórias parecidas com a do Bangu, principalmente, no que diz respeito a pioneirismos e causas sociais.

Este projeto enriquece ainda mais a nossa história e fará justiça. Melhorando a autoestima de um bairro de verdade que tem como principal marketing o Bangu Atlético Clube.

Carlos Molinari:
Se obtivermos provas cabais da realização dos primeiros jogos aqui no bairro, a importância de Bangu para a história do futebol brasileiro passa a ser total. Já provamos por meio de fotografias e notícias de jornais que o Bangu foi o primeiro clube de futebol do país a aceitar a participação de atletas negros. Isso em 1905.
 
Daí, obtivemos a Medalha Tiradentes, dada pela ALERJ, em 20/11/2001.
 
Aquela balela do argumento do Vasco de 1923 caiu totalmente por terra: 18 anos depois ninguém poderia ser pioneiro em nada.

Lendo o livro “O Negro no futebol brasileiro”, de Mário Filho, fica evidente o pioneirismo e a luta do Bangu neste campo. Isso sem falar na participação popular, na participação do operário, do pobre em uma associação para práticas esportivas, o que é uma inovação, já que os clubes eram sempre destinados ao lazer da elite. O Bangu constituiu, no início do século XX, uma revolução nos costumes, tal como aponta o historiador Waldenyr Caldas, no seu livro “O pontapé inicial”.
 
Outros historiadores, tal como Leonardo Affonso de Miranda Pereira, no livro “Footballmania” também elencam inúmeras lutas do Bangu pela popularização do esporte e a participação efetiva de negros e operários no jogo inglês.

Fora tudo isso, foi no campo do Bangu, na Rua Ferrer, que as primeiras placas publicitárias foram expostas em um campo de futebol no país. E foi o Bangu que, em 1949, iniciou o sistema de patrocínios nas camisas, ao estampar o losango da Fábrica Bangu no peito dos atletas. Na época, ninguém tinha tido tal ideia. Como o time tinha o mesmo nome da fábrica, não iria ficar estranho, nem ninguém iria proibir.

Hoje o Bangu tem toda sua historia registrada em dois livros de minha autoria: “Nós é que somos banguenses” e o “Almanaque do Bangu”, para que ninguém tenha dúvida sobre os feitos que este clube já conseguiu desde 1904 até hoje.

Clécio Regis:
Um bairro que se confunde com um clube. Estão intimamente ligados pela história. Símbolo maior. Religião! O Banguense é fiel, nunca abandonamos o Bangu nos estádios. E a nossa vida; histórias e glórias.

Somos Bangu, eternamente Bangu !

Sobre os entrevistados


Clécio Regis
 
Trabalha na área de cenografia, escultura, pintura de arte, com clientes importantes como Rede Globo, Oi, MetroRio, Fashion Rio, Fashion Business, incluindo também vitrines das mais importantes marcas de roupa do Brasil. É autor das esculturas: Filme “Nosso Lar” (Muralha) maior Escultura do Cinema Brasileiro; Dr. Roberto Marinho (tamanho natural, TV Globo – Portaria 3); Memorial da Pediatria Brasileira: Maternidade (tamanho natural); Pasteur (busto, tamanho natural); Hipócrates (busto, tamanho natural); Zumbi dos Palmares (busto, 80 cm); Domingos da Guia (busto, tamanho natural). É autor da pintura, Hoje é dia de Maria – Micro Série, 1ª e 2ª jornada, o maior painel de pintura arte já feito no mundo, com mais de 8000 M² de área pintada.
 
Carlos Molinari
 
É pesquisador da história do Bangu, autor dos livros: “Nós é que somos banguenses” e o “Almanaque do Bangu”. É colaborador permanente do site www.bangu.net

Fonte: Literatura na Arquibancada


02/10/2019 11:32